Nem mesmo o mais abstrato ser transeunte desse ‘sistema’ social de castas emocionais poderia ter o prazer de entrar numa fila para pagar suas contas. Quem pensa: “olha lá, uma fila repleta de trabalhadores pagando suas contas em dia, vou juntar-me a eles”...?
Para um cidadão desleixado talvez, pagar suas contas, seja como arrancar um fígado de um refugiado do Zaire, traficadas para um país vizinho para esse fim. Receber o salário e cumprir sua função social-capitalista-selvagem: pagar contas. Bem, quem não quer pagar dívidas que não as faça, não é mesmo? Mas como diriam os sábios tios guardadores do cofrinho perdido: “quem não deve não tem”.
Entrei na fila. Dia quente de um sábado agitado. Rumo à lotérica, o refúgio dos bons (e maus) pagadores. Pelo menos, vinte viventes em minha frente. O dinheiro contado para pagar a recém-cortada internet 3G contrastavam no bolso com algumas balas Halls em decomposição – resultado do esquecimento (de pagar a conta da net e das balas amolecidas e grudentas no bolso da calça que até fora lavada com os ‘drops’ junto).
Quarenta minutos esperando em pé. Quando a gente chega perto do guichê, a sensação é estranha. “Será que contei certo a grana? Vai ter multa? A mocinha vai atender bem? Que vontade de um Gatorade”. Situação que nos remetem à própria condição humana: “Puta vida, o que é que eu to fazendo aqui?”.
No instante em que cheguei no guichê, uma longa olhada para a mocinha. Algo como quem diz: “viu, não desisti”. Deveriam, de fato, dar desconto a quem chega ali, na boca do caixa.
Passei a folha, e ela disse, “Só essa?”, pendei em dizer: “não, tem também a folha do papel do Halls que grudou na cueca, porque o bolso ta furado, MEOOOO DEOOSSSS”. Respondi afirmativamente com a cabeça, com certa sensação de culpa. “Deveria ter mais contas para pagar...”.
Mas foi de fato, quando a mocinha passou o código de barras na leitora, seguida por uma cara de frustração da atendente, que meu coração bateu forte. Com uma voz doce e suave, como uma mãe acalentando seu filho perdido, ela disse: “o sistema está off”.
Não dá para imaginar quanto tempo passa entre as sombracelhas cerrando-se em direção aos olhos e os olhos dilatando a pupila, enquanto fita-se o olhar daquele que vai levar um ‘esporro’ (no caso a atendente). “Mas que p.q.p; f.d.p; zica do inferno, ô cacete”, repeti intimamente com meus nervos à flor da pele.
Não que ela tivesse culpa, afinal, a culpa é sempre do sistema. Não briguei. Resignei-me a olhar o cartaz da Tele-Sena (de natal) que algum estagiário certamente não removeu.
Olhei para a mocinha e falei: “ah... esse sistema né... danado... sempre apronta das suas...”. Ela não sorriu. Disse: “é...”, suspirando baixinho. Depois de quase 5 minutos – uma eternidade para quem espera – tudo deu certo.
O que me consola é que quem cobra uma conta, também as tem para pagar. Cada um tem o sistema que merece.
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